sábado, 13 de abril de 2013

Do inferno para o céu (Um final quase alternativo)

Ps: Baseado no texto da Jéssica Marcon Dalcol, encontrado no G1 (http://g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL857421-5604,00.html)

  ''Noite serena; O céu, tomado pelas luzes da cidade, as invejava. Queria exibir suas estrelas, mas os pontinhos luminosos lá embaixo não as deixavam aparecer. Um jovem solitário, à janela de um apartamento, observava a lua. Queria pegá-la. Debruçou-se sobre o parapeito e esticou os braços: não a alcançava, Insistiu até sentir a mão deslizar em falso e, assustado pelo perigo da queda, virou as costas para a janela. Deparou-se com um cômodo escuro; apenas um abajur aceso ao centro, proporcionando sombras psicodélicas ao redor. Demônios com as mais diversas faces escondiam-se, corriam, dançavam, enquanto os móveis tomavam formas estranhas. Sentiu o braço arder: era a seringa, há pouco usada a fim de encontrar mais uma vez aquele mundo, ainda espetada nele.

     Seus olhos vagavam perdidos em meio àquelas ilusões quando, subitamente, se deparou com o retrato de sua avó – na verdade mãe, pois fora ela quem o criara desde a morte dos pais. Suas feições sorridentes derreteram, convertendo-se numa expressão macabra, de luto. E por que sorriria? Ali era o inferno; a morte envolvia o jovem neto, tomava seu corpo aos poucos com o que nós, mortais, chamamos de vírus. De repente vozes. O jovem, dominado por horror, encolheu-se ao chão e por entre as mechas seu cabelo negro jogado ao rosto, viu as criaturas demoníacas a encará-lo, dizendo "niguém mandou usar drogas", "se tivesse ouvido sua avó", "Aids? É merecido, seu drogado! Tá aí seu prêmio por...". "Chega!", gritou o garoto.

    Sentia-se cansado. Cansado pela fadiga gerada pela doença, diagnosticada há alguns meses e, principalmente, cansado de sua solidão. Arrependera-se de usar drogas, mas o vício era mais forte que ele e mais forte ainda era o preconceito vivido após contrair Aids. Pagava seus pecados através da doença e suportando os olhares alheios a condená-lo, a contemplar sua desgraça como merecida. E não suportando toda a condenação, recorria à seringa novamente. "Cadê a seringa?" Encontrando-a, injetou novamente a droga. Em sua circulação, condenação e morte corriam juntas.

      Agora sim..."

      Ele poderia "relaxar". De olhos fechados ele pensava, sua vida passando como um filme. Desde a primeira vez que usou em questão, com 14 anos. "Estava na escola, o dia tinha sido terrível. Tirara 5 notas baixas, havia apanhado de alguns valentões e fez uma 'visita' à sala da diretoria. Sentia-se péssimo. Pensava em Dona Maria, sua avó. Um grupo de garotos o chamou e ofereceu-lhe 'o alívio'. A partir desse dia não parou mais. A cada uso, uma substância mais pesada. Da maconha ao crack. Ainda ia à escola, mas por sua cuidadora. À noite, saía para a 'farra' e dizia que ia dormir na casa de amigos.

        Aos 17, recebeu uma notícia que mudaria tudo: Dona Maria morrera, vítima de um AVC. Não estava lúcido, mas sofreu como nunca. Largou os estudos de vez, isolou-se e teve seu momento de luto. Mas não demorou para que voltasse ao vício e piorasse. Vendia tudo o que pudesse para comprar drogas, pois suas 'noitadas' eram frequentes. Arranjara inimigos e amigos nesses lugares. Um se chamava Joca e já era usuário há muito tempo. Tornaram-se grandes companheiros de consumo. Em pouco tempo, já dividiam a mesma seringa. Com 18, descobre que, tanto ele quanto o amigo, são soro-positivo's. Foi o fim do mundo. Agora está sozinho, pois Joca falecera 3 meses depois do diagnóstico"

         Ainda sentado, ele toma a decisão que muda a sua vida. Apesar da dúvida, vai até a janela, que antes era o seu pesadelo... Agora é a sua "salvação". Sobe no parapeito e vislumbra pela última vez a noite barulhenta. Olha para o céu e vê a sua avó sorrindo para ele, retribui o sorrisso de um modo singelamente fraco, fecha os olhos e vai rumo ao sono eterno.



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